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Estilo de Vida Outros

Relacionamento Intercultural

21 de novembro de 2017

Quem vê minhas fotos no Instagram com o meu marido, pensa que nossa vida são apenas flores. Não são. Como qualquer ser humano normal, temos nossas dificuldades e desentendimentos, e para temperar tudo isso ainda temos as nossas diferenças culturais. Ao mesmo tempo que relacionamentos com pessoas de outras nacionalidades sejam excitantes, como qualquer relacionamento temos nossas dificuldades de comunicação que se multiplicam quando digo uma coisa e ele entende outra.

Comecei a aprender inglês aos 9 anos de idade e quando conheci o Ezio, eu jurava que era a expert no idioma. Ledo engano. Tudo aquilo que você aprendeu no CCAA da vida cai por terra quando você precisa expressar raiva, ciúmes, medo, saudades e por aí vai. Não apenas o idioma pode ser um fator de dificuldade, mas também o contexto cultural onde você e a pessoa foram criados.

Meu marido é cubano/americano e sempre brinco que só casei com ele por conta do seu lado latino. É muito mais fácil para mim, expor os meus sentimentos em português do que em inglês. Não por falta de vocabulário, mas simplesmente porque sempre acho muito mais verdadeiro quando solto um “eu te amo” no meu idioma do que o famoso I love you. Da mesma maneira que eu sei que quando ele solta um “cunho” em espanhol, significa que ele esta realmente emputecido.

Ao longo dos nossos quase 5 anos juntos, já tivemos situações onde eu falei uma coisa e ele entendeu outra. Quando ele fala para mim por exemplo I adore you, em inglês o adore é muito mais forte que o love. Enquanto em português o eu te adoro pelo menos para mim não tem tanto impacto como o eu amo você. Outra diferença foi quando eu disse para ele uma vez que estava nervous e isso deixou ele muito preocupado. Porque o nervous tem uma conotação negativa aqui e no Brasil podemos estar nervosos simplesmente porque vamos fazer uma prova e sabemos que não iremos bem.

No nosso inicio de namoro, uma das coisas que mais me irritavam como brasileira, era essa questão de personal space. Eu nunca entendi direito essa coisa americana de “preciso de espaço”. Se eu pudesse, ficaria com ele todas as noites, grudadas e ele um dia me cortou na cara dura dizendo que precisava de espaço. Acho que por estar no Brasil, eu me senti muito mais confortável em virar para ele e dizer: “olha aqui querido… se você ficar fazendo esses joguinhos de espaço vou te dar um espaço enorme e a fila vai andar”.

Claro que o fato de o espanhol ser o primeiro idioma dele, torna tudo muito mais fácil. Nossa comunicação é uma mistura de três idiomas constantemente. Eu uso português praticamente o tempo inteiro, para ele aperfeiçoar o que ele já sabe e continuar praticando para poder se comunicar com os meus familiares e amigos. Quando temos de tratar algo importante e quero ter certeza de que não haverá erros, optamos pelo inglês. Além do meu inglês ser muito melhor do que o português dele, é muito mais rápido e eu não preciso ficar explicando o que quis dizer o tempo todo. O espanhol usamos com frequência porque eu preciso praticar para poder falar com a família dele. Meu portunhol dá para o gasto. Soltamos uma frase ou outra em francês, mas percebo que vamos acabar esquecendo o idioma porque aqui quase não usamos.

Outras situações apareceram ao longo do tempo. Por exemplo, americanos são super contra PDA (public display of affection) ou se você preferir demonstrações publicas de afeto. Eu tive de aprender ao longo dos anos a não abraçar e beijar ele na rua. Porém ele aprendeu a segurar a minha mão quando estamos em público ou num shopping. Ele sabe da minha necessidade de toque e eu entendo que não posso dar um beijão nele no meio da rua. É uma troca. Já percebi várias vezes que somos mais afetuosos um com o outro do que outros casais interculturais. Mas acho que não é nada relacionado com o tamanho do amor que um casal tem pelo outro, mas simplesmente pelo meu lado emocional/brasileiro gritar tão forte.

Mas nem só de problemas vive um casal intercultural. Uma das atitudes dele que me fizeram cair de amores é o fato de ele sempre abrir a porta do carro para mim. E hoje mesmo após muito tempo juntos, ele ainda o faz. Uma outra atitude que aos olhos de algumas pessoas pode soar banal, mas para mim faz toda a diferença, é o fato de ele me agradecer por ter feito o jantar, ou por ter limpado a casa, ou por ter ido ao mercado. O que na minha cabeça é algo que eu deva fazer por ser uma mulher casada e dona de casa que no momento não trabalha fora, para ele é motivo de agradecimento. Isso não tem preço.

Um outro acontecimento muito marcante na nossa diferença cultural é a troca de presentes em datas comemorativas. No inicio do namoro, eu dei para ele um relógio caríssimo da Victor Hugo. Devo ter gastado metade do meu salário mensal na ocasião num mega relógio de aniversário para ele. Meu marido sempre foi extremamente generoso comigo em presentes, viagens e afins e eu queria muito retribuir a altura. Lembro como se fosse hoje o dia que entreguei o presente para ele. A cara dele foi no chão, eu não conseguia entender se era raiva, vergonha, mas vi na cara dele que ele estava muito puto. A primeira coisa que ele me falou foi: “somente pela caixa de presente, imagino que você deve ter pago uma fortuna nele, quanto foi? “. Eu nunca me senti tão ultrajada em toda a minha vida. Eu achando que ele ia cair de amores pelo presente e ele me pergunta o valor do relógio. Disse que não falaria o valor porque não importava (realmente para mim, naquele momento não importava mesmo). Ele levantou do restaurante onde estávamos e dirigiu ate a loja mais próxima. Fomos calados do restaurante até a loja e ao chegar lá ele simplesmente queria devolver o relógio e queria que a loja reembolsasse o meu cartão. Eu não entendi nada até que ele me disse que ele deveria ser a pessoa a presentear generosamente e não o contrario uma vez que nossa diferença salarial era grande. Disse que apenas o meu amor, cuidado e carinho com ele eram o suficiente e que ficaria muito mais feliz com um cartão sincero ou um jantar feito por mim do que um relógio de 4 dígitos no pulso. Eu nunca na minha vida esperaria algo assim. Claro que ele foi informado que reembolsos no Brasil são quase impossíveis e que ou trocaríamos o relógio por outro item da loja para mim ou ele ficaria com o relógio. Ele ficou passado com o sistema brasileiro de devolução (inexistente) e hoje usa o relógio feliz e contente. O engraçado é que ele tem um carinho absurdo pelo presente e sempre usa em ocasiões especiais. Porém deixou claro que aquele seria o primeiro e ultimo presente que eu gastaria uma pequena fortuna.

Essas são apenas algumas das situações que passamos e que compartilho com vocês para explicar que um relacionamento intercultural é desafiador. Não é impossível, mas requer carinho, atenção, vontade de entender, abraçar e respeitar a cultura do outro. Eu cresci muito como pessoa e aprendi a me colocar no lugar dele e a ver as situações com outros olhos desde que comecei a namorar o meu esposo. No fim de tudo, o que vale é ser feliz.

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Por Érica Brasilino

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