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Estilo de Vida Outros

E eu me tornei uma trailing spouse!

09 de janeiro de 2018

Desde que eu me entendo por gente, minha mãe sempre trabalhou fora. Sempre foi motivo de orgulho para ela acordar as 5:00 da manhã, tomar café, se arrumar e partir para o ponto de ônibus sentido Moema. Passei minha infância/adolescência assistindo a minha mãe dia após dia, conquistar seu espaço no mercado de trabalho e com o seu esforço laboral, trazer para casa seu suado salário e dar uma vida digna para mim e meu irmão. Tudo indicava que eu estava seguindo o mesmo caminho, tinha um emprego estável que pagava bem em São Paulo, estava convicta de que me aposentaria lá e teria uma velhice confortável. INSS e aposentadoria privada engatilhada para complementar a renda. Até que este homem chegou na minha vida… e virou tudo de ponta cabeça.

Eu sempre tive muito orgulho da minha independência financeira e aos 25 anos já tinha uma moto, um carro e um apartamento comprado com meu ex marido. Para alguém que veio de um bairro periférico, filha de mãe solteira… eu já tinha de certa forma vencido na vida. Era só uma questão de administrar e cada vez mais guardar para o futuro e fazer uma viagem bacana por ano.

Quando começaram as conversas sobre abandonar minha carreira e seguir meu atual esposo mundo afora… sempre fomos adultos o suficiente para sentar e analisar todos os prós e contras. E levei 15 meses para finalmente decidir seguir o coração. Quando ele foi para o Paquistão e ficamos namorando a distância e nos encontrando a cada 4 meses… percebi que ou seguia ele até o fim do mundo, ou escolheria a minha carreira e seria frustrada num relacionamento futuro qualquer por puro medo.

Os primeiros meses como uma trailing spouse foram muito difíceis para me adaptar. Passei de uma mulher independente que comprava uma bolsa da Michael Kors de R$1500 para uma noiva que recebia mesada. Estipulamos um valor X por semana e lembro que a primeira vez que ele deixou dinheiro para mim e foi trabalhar me senti um lixo. Chorei o dia inteiro de vergonha. Lembro que levei pelo menos 3 meses para comentar com ele que precisava de alguma coisa. Chegou ao extremo de ele me ligar e eu não poder atender o telefone porque meu crédito tinha acabado e eu não queria pedir. Foi ridículo. Até que decidimos abrir uma conta para mim aqui e ele passou a transferir o dinheiro diretamente para lá, então eu uso o cartão, faço o que tenho que fazer e não vejo ele fazer os depósitos. Pode parecer ridículo… mas funcionou melhor após essa decisão.

Foram precisas várias conversas ao longo destes dois anos para eu entender que tenho um papel fundamental no nosso relacionamento e que ser dona de casa/trailing spouse que não trabalha, não significa que não tenha o meu valor. Durante o meu tempo na África, me tornei administradora da nossa casa em tempo integral, onde eu gerenciava 4 funcionários, controlava as compras da casa, administrava a folha de pagamento e os problemas do pessoal, e ainda tinha que ser a esposa a altura do representante estrangeiro em terras longínquas. Foram inúmeros eventos que tive de organizar por conta do trabalho dele na nossa casa. De certa forma, isso é um tipo de trabalho. Trocamos as senhas de sites como Walmart e Amazon e eu não precisava esperar ele chegar em casa para fazermos as compras da semana. Eu mesma sentava, pedia online e duas semanas depois nossa despensa estava abastecida. Ter independência novamente foi primordial para reestabelecer a minha segurança como mulher.

Além de tudo isso, eu precisava me sentir útil. Uma das piores coisas de ficar em casa é a sensação de que você não é mais interessante porque não tem conteúdo para conversar com o seu marido. Por conta dessa minha inquietação e necessidade de desafios eu voltei a estudar. Me matriculei na faculdade no Brasil e estou cursando Eventos na Anhembi Morumbi. Também faço uma especialização do meu curso de Maquiadora Profissional pela Make Up Academy da Renata Meins online e estava cursando francês três vezes por semana particular em casa com um professor no Togo. Fazia voluntariado com dois grupos diferentes em Lomé e de vez quando dava um pulo na academia. E comecei este blog, pois precisava manter a mente ativa. Por conta do blog conheci muita gente bacana da rede de blogueiros de viagem e fiz uma amigona para a vida (você Flávia).

 

As pessoas que olham de fora, pensam que a vida de quem é uma trailing spouse é só festa, cafés da manhã com outras spouses, viagens e afins. Não… não é. Temos um gap no currículo (o meu já está de dois anos) e quando voltamos para o mercado de trabalho temos que explicar para o empregador em potencial porque, apesar do nosso conhecimento e experiência estamos fora do mercado de trabalho. Manter-se ocupada é também benéfico para o currículo para o dia que você decidir voltar a trabalhar. Meus artigos neste humilde blog têm alcançado muitas pessoas no Linkedin desde que conectei ele com a rede de empregos e sempre recebo visitas no meu perfil de pessoas de vários ramos. Já até fiz freelas de tradução português/inglês inclusive para empresas de tecnologia do Vale do Silício por conta do meu perfil atualizado por lá.

Confesso que muito me incomodava em Lomé ser conhecida como a esposa da pessoa tal. É uma perda de identidade de uma certa maneira. Você deixa de ser uma profissional com vida própria para ser a mulher de alguém. Enquanto eu sei que várias mulheres no Togo (talvez até no Brasil) dariam uma perna para estarem no meu lugar, eu quero ser reconhecida por ser a Érica, uma profissional que fala 4 idiomas, que escreve um blog e que já fez voluntariado na África, não apenas como a esposa do Ezio (babe I love you and you know what I mean).

Colocar a nossa carreira em pausa é uma das maiores demonstrações de amor que podemos dar para os nossos spouses. É colocar a nossa necessidade em segundo plano por conta do objetivo do próximo, mas nada mais é do que também ser um jogador de um time. Porque se ambos não estiverem unidos no mesmo objetivo, não há casamento que aguente, e o que mais tem nesse nosso ramo são casamentos infelizes e histórias de adultérios de cair o queixo.

Sem contar que quando mudamos para um novo local, o spouse que tem a carreira esta ocupadíssimo com o seu novo trabalho enquanto você esta em casa miseravelmente tentando entender como funciona o novo país, as vezes sem internet ou televisão por semanas a fio, com apenas uma panela para cozinhar. E tem de organizar toda a mudança quando ela chega de navio após meses e meses a fio. Tem que fazer amizades do zero e tem de ser um poço de otimismo e amor para quando o spouse chegar em casa deprimido ou chateado, reafirmarmos que esta tudo bem e que conseguiremos passar por mais essa.

 

Essas mudanças podem ser muito solitárias, principalmente se você faz parte de um casal sem filhos (nosso caso). Passei vários dias sozinha por mais de 14 horas em casa no meio do nada no Togo porque tínhamos acabado de chegar e ele precisava se adaptar e catch up on stuff right away. Mas ninguém nunca disse que seria fácil.

No final das contas, o importante é encontrar a sua felicidade, é ser resiliente e auto suficiente para poder saber o que fazer com o seu tempo livre e não se sentir culpada por ter tempo livre. É descobrir prazer em pequenas coisas como ler um livro numa terça chuvosa após ter limpado a casa com o gato no seu colo. É não dar atenção ao que a sociedade espera de você, mas sim ao que faz você e a sua melhor metade feliz. Se no final das contas estiver funcionando para vocês, isso é o que importa.

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Por Érica Brasilino

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