Categoria: Togo

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Obrigada Togo

08 de agosto de 2017

Este é um post que eu particularmente tinha pensado em não escrever. Mas seria injusto não falar sobre o país onde moramos e principalmente sobre um país que pouquíssimo se encontra na internet a respeito.

A principal avenida do país

Quando descobri que íamos morar no oeste da África, mais precisamente no Togo, minha primeira reação ao nome do país foi… ONDE? Confesso… eu nunca tinha ouvido falar na minha vida sobre este local e tive que recorrer ao Google para ver onde ele estava localizado no mundo. Desde quando fomos informados sobre a mudança até chegar lá efetivamente, foram 21 meses de preparação e pesquisas que não deram praticamente em lugar nenhum. Eu não conseguia encontrar praticamente nada a respeito. Tinha uma foto ou outra no Instagram mas nada que pudesse me dar uma idéia do que estava por vir na nossa vida.

O Togo é um pequeno país localizado entre Ghana, Benin, Burkina Faso e o Oceano Atlântico. Quente praticamente 365 dias do ano, com 60% da população cristã e 40% muçulmana. Um país onde a poligamia é aceita e praticada por alguns e onde a mulher ainda é vista com algum nível de submissão apesar de ser a força de trabalho mais vista nas ruas.

Se não for uma avenida, não tem asfalto

Quando cheguei ao Togo meu noivo já estava lá por duas semanas. Minha saída do Brasil onde eu estava de férias e aproveitava as Olímpiadas com os amigos foi estressante. Ao fazer o check in no balcão da Ethiopian Airlines em Guarulhos fui chamada de lado pelos agentes da companhia. Primeiro eles nunca tinham visto nenhuma mulher viajar para o Togo (o vôo na verdade é SP – Addis Abeba com uma pausa de 40 minutos em Lomé… mas ninguém desce lá nem muito menos uma mulher sozinha!). Além de tudo eu estava com um ticket de ida apenas e com um visto para o país emitido na embaixada do Togo em Washington DC. Tive de contar toda a minha vida e mostrar fotos do meu Instagram para comprovar a minha história. Depois que tudo foi esclarecido fui informada que o Togo é a porta de entrada para o tráfico internacional de mulheres principalmente em rota para o Oriente Médio, então eles queriam ter certeza de que eu sabia para onde estava indo e tinha uma história plausível… do contrário voltaria pra casa. Confesso que fiquei assustada… mas depois tudo fez sentido, e fico feliz que exista essa preocupação com a viajante do sexo feminino desacompanhada.

Ao chegar ao Togo fui a ÚNICA mulher a descer da aeronave… eu e mais uns 6 togoleses descemos e claro todos eles ficaram me encarando curiosos. Por sorte havia uma pessoa me esperando e fez todos os trâmites para mim (contratada pelo Ezio) e não tive de me preocupar com nada. Só apresentava para ela o que ela pedia e ela traduzia para o idioma local. Foi rápido e indolor na imigração e no check point de vacinação (a vacina de febre amarela é obrigatória para a maioria dos países da África). O Togo exige visto para entrar mas o mesmo pode ser obtido no aeroporto na chegada.

O trânsito caótico sem leis da África

Para sair do aeroporto havia uma fila ENORME. Os togoleses abrem TODAS as malas e tiram todos os itens para procurar por drogas. Eu jurava que estavam de olho em itens de importação… não! A preocupação por lá é o tráfico.

Ao sair do aeroporto pude finalmente abraçar o meu amor. No Togo não é possível esperar seu ente querido que chega de viagem dentro do aeroporto, você tem que ficar no calor togolês de 50c lá fora esperando. O bafo era tão quente que eu pensei que não fosse aguentar morar lá.

O sol escaldante do Togo

O caminho entre o aeroporto e a nossa casa foi longo… parece ter demorado uma eternidade… mas depois aprendi que nossa casa estava apenas a 10 minutos do aeroporto. Enfim… foi o suficiente para eu me questionar por várias vezes: “Que diabos eu vim fazer aqui?????”. Quem nunca visitou a África não tem idéia do que é realmente pisar na África. Existem na minha cabeça pré Togo 3 Áfricas: A super desenvolvida que se resume a África do Sul, a África dos safáris onde os animais correm lindamente pelo cerrado com câmeras escondidas da National Geographic (a louca) e a África paupérrima onde crianças desnutridas estão esperando a morte ou a ajuda de alguém chegar. Nunca pensei num meio termo onde as outras pessoas vivem. E foi neste meio termo que eu cai de paraquedas. Numa capital onde eles têm um aeroporto de primeiro mundo, onde soldados com armas guardam a entrada mas na rua do lado de fora do aeroporto pessoas fazem suas necessidades ao ar livre como se fosse a coisa mais natural do mundo. Ao ver uma senhora agachar na rua para fazer xixi olhando para a minha cara como se ela fizesse isso todos os dias me assustou. Temos a mania absurda de falar mal do Brasil, do governo, do trânsito, mas dar de cara com uma realidade que mesmo nós que viemos de um país com favelas, não estamos acostumados, é para dar tilt em qualquer cabeça. Confesso que fiquei feliz quando o carro virou á direita e entrou num bairro com ruas asfaltadas e com casas lindas que não pareciam estar na África. É feio falar isso? Acredito que sim… mas só estando lá passando por tudo isso simultâneamente para saber como realmente é. Fiquei praticamente uma semana dentro de casa com medo de sair na rua. Mas eu sabia que não podia deixar este medo do desconhecido me ganhar pois eu tinha muito tempo pela frente por lá.

70% da população vive em condições precárias

Claro que estar num país como expatriada, fazendo parte da elite de 1% de pessoas que são consideradas milionárias é surreal. Mesmo sabendo que aqui nos EUA somos classe média e não podemos comprar uma Ferrari, lá éramos vistos como magnatas. E isso muito me incomodava pois eu tenho familiares que lutam todos os dias por uma vida melhor no Brasil, ou seja, eu estava vivendo numa bolha surreal por lá. Nunca na minha vida imaginei ter 4 funcionários em casa e ser chamada de madame. Isso muito me incomodou durante todo o tempo que vivi por lá. Eu nunca usei a piscina de casa nos dias que a Berenice ia trabalhar (segunda, quarta e sexta). Pode parecer ridículo mas eu não tinha coragem de vestir um biquínis e pedir para ela me levar um suco na piscina. Eu também tinha muita vergonha de fazer compras na rua e chegar com as sacolas em casa. Só de saber que nossa compra no mercado por semana era o dobro do valor do salário dos guardas na nossa casa me matava por dentro. Este sentimento de culpa e vergonha me acompanhou durante todo o meu tempo vivendo lá. Saber que minha gaveta de maquiagens tinha o valor do salário da Bernice de 3 anos me enojava. Não comprei nada por quase um ano, não usava maquiagens, não me permitia me arrumar por pura vergonha. Até ouvir de uma amiga psicóloga que como chefe deles uma postura era esperada da minha parte, e eu tinha que agir como a madame (senhora). Isso foi um tapa enorme na minha cara.

O viajante (ocasional ou frequente) tem de ter a mente aberta ao novo. E ir para outro continente traz o choque cultural para a sua realidade diária. É fácil viajar para o Uruguai, Argentina ou até mesmo os Estados Unidos e se sentir confortável. Por mais que sejam outros países, dividimos o mesmo continente e muitas vezes a comida é muito semelhante, como no caso da Costa Rica, México e Cuba. Quando você atravessa o oceano tudo muda de figura. Eu que passei a vida pensando que eu era negra, me vi ser taxada de branca pela primeira vez na vida. Aprendi a dar valor a coisas simples como uma sacola plástica. Ou a caixa de papelão que é utilizada para fazer paredes!

Infância roubada

Claro que existe o togolês classe média, aquele que tem a sorte de ter acesso a educação e a um emprego no governo local ou estrangeiro. E estes tem uma vida consideravelmente confortável. Mas mesmo estes, ainda têm o sonho de imigrar para o Canadá ou para a Alemanha. Essa foi uma das maiores diferenças entre o Brasil e o Togo. Enquanto o Brasil estava numa onde econômica boa, pouco se ouvia falar de pessoas imigrando. Mas quando tudo começa a piorar, o número de pessoas saindo do país aumenta exponencialmente.

Grand Marche, onde sua cor de pele dita o preço

Na cidade a energia elétrica é bem instável e tínhamos geradores em casa. Houveram alguns dias que a energia piscou mais de 10 vezes e o gerador simplesmente trabalhava non stop. A internet também caía com muita frequência, então tínhamos que ter outras formas de lazer como revistas, livros, jogos de tabuleiros ou DVDs (foi assim que começamos a assistir Game of Thrones). Muitas pessoas não tem geladeira ou televisor em casa, então consequentemente muitas não sabem o que está acontecendo no mundo lá fora. Lembro quando mostrei a Bernice a escola de samba do Rio que foi campeã este ano cantando sobre a África, os olhos dela brilharam maravilhados de emoção por ver o continente dela sendo retratado de maneira tão rica.

Minha fiel ajudante Bernice

Por falar na Bernice o dia que jamais vou esquecer foi o dia que perguntei a ela o que ela queria de presente do Brasil. Pensei que ela fosse me pedir uma comida típica ou um par de Havaianas (como eu sou idiota, acho que o mundo inteiro sabe o que são Havaianas) e ela me pediu desodorante!!!!! Como era muito caro na cidade comprar desodorantes, se ela comprasse um ela não poderia comprar comida. Isso porque o salário que ela fazia lá em casa ela era considerada classe média. Quando contei isso pra minha mãe, choramos juntas. Ao voltar do Brasil minha mãe tinha feito um kit de presente para a Bere com vários desodorantes, creme hidratante, batons e outros itens femininos. Jamais esquecerei como ela ficou agradecida.

Crianças sendo crianças

Enfim após 10 meses de Togo estamos de volta á Washington. Eu poderia ficar horas e horas falando sobre o Togo e todas as lições que aprendi neste quase um ano por lá. Eu poderia ter passado dez longos meses reclamando de tudo a minha volta, como era horrível não ter um shopping, um cinema ou qualquer outra coisa para fazer (e não tinha mesmo). Mas preferi optar por ser feliz e absorver a cultura daquele local. E uma lição que vou levar para a minha vida é a de que não importa o tamanho do seu problema, Deus está sempre olhando por você, mesmo que você não veja isso. Agradeça sempre por ter um copo de água limpa ou um travesseiro para descansar a sua cabeça. Nunca vi/conheci gente mais feliz do que a africana, mesmo aqueles que não tem nada. Se um dia tiver a oportunidade de conhecer a África, não pense duas vezes. Mas não a África que vendem nas agências de viagem, mas a verdadeira África, aquela que você vai pensando que vai ajudar, mas sai de lá é presenteado de aprendizado pra vida. Sim o Togo não foi um local fácil para morar, mas foi sem dúvida um divisor de águas na história da minha vida.

Voluntariado com os missionários brasileiros

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Por Érica Brasilino

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