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Estilo de Vida Outros Saindo do Brasil

A difícil decisão de partir

28 de novembro de 2018

Há exatamente três anos atrás eu abandonei tudo no Brasil por conta de um amor. Eu tinha um ótimo emprego, amigos, família, já tinha comprado um apartamento, carro, fazia uma viagem bacana por ano, mas me apaixonei loucamente e decidi seguir meu coração.

Eu nunca tinha pensado em sair do Brasil, muito pelo contrário sempre tive muito orgulho de ser brasileira e sempre me senti confortável na minha São Paulo. Por mais que eu já tivesse visitado alguns países eu sempre soube onde era o meu lugar no mundo.

A minha amada São Paulo

 

Pedir demissão não foi nada fácil… o dia que redigi a carta de demissão eu chorei horrores sentada na cozinha da minha mãe. O que eu estava fazendo? Jogando fora nove anos de empresa e tudo o que eu conhecia por um amor que eu tinha vivido por menos de dois anos no dia a dia e estava vivendo ele a quinze meses à distância. Minha mãe que acompanhou meus meses de tristeza longe do Ezio enquanto ele trabalhava em Islamabad disse: “vá ser feliz, se não der certo você sempre terá um lar para onde voltar, você fala outros idiomas e fome não vai passar se precisar voltar ao Brasil”. Imagino o quanto deve ter doído nela falar isso para mim, mas sem dúvida se não fosse a postura e o apoio dela, eu não teria seguido o meu destino.

O dia que fui embora foi o mais difícil da minha vida. Dar tchau pro meu irmão e pra minha mãe, beijar meu afilhado e dizer até um dia doeu no fundo da minha alma. Foram as piores 9 horas de vôo da minha história. Nunca contei pra ninguém, mas as comissárias tiveram de me dar um calmante para eu dormir. Eu não sabia o que o futuro me reservava, sabia que era filha de uma mãe solteira que tinha lutado muito para pagar o pouco de educação que eu tinha e que eu estava abrindo mão de viver o dia a dia com a minha família para viver um amor no exterior.

O dia de dar tchau 🙁

 

Cheguei em Washington D.C e esperei por longas oito horas o vôo do Ezio que estava vindo de Islamabad no Paquistão. Assisti vários capítulos da Além do Tempo (novela) pela internet até que um etíope funcionário do aeroporto veio perguntar se estava tudo bem. Ele viu que eu tinha desembarcado as 7 da manhã quando ele chegou para trabalhar e eram 2 da tarde, ele estava indo para casa e estava preocupado se alguém tinha esquecido de me pegar no aeroporto. Eu jamais vou esquecer a bondade dele. Expliquei que meu noivo ia chegar num vôo vindo de outra parte do mundo e eu estava bem.

As 4 da tarde o vôo do Ezio chegou e pro meu desespero todo mundo naquele vôo era careca. Quando ele finalmente apareceu e nos abraçamos após 3 meses sem nos ver (tínhamos nos encontrado em setembro na Espanha, onde passamos 21 dias juntos) eu chorei tudo o que estava preso na minha garganta. Estava aliviada que o tour dele longe tinha acabado, mas estava muito melancólica por ter deixado minha família para trás.

Primeiro dia da minha vida nova 28/11/2015

 

O resto é história: passamos oito meses em treinamento de francês em Washington antes de ir para o Togo, passamos um ano em Lomé e estamos de volta em DC a 17 meses. Não temos ideia de onde será o nosso próximo posto em julho do ano que vem. Adotamos a Isabella, visitamos lugares incríveis pelo mundo, casamos e formamos uma família. Temos nossos problemas como qualquer casal, mas estamos juntos a quase 6 anos entre altos e baixos.

Sinto falta do Brasil todos os dias: da minha gente, do idioma, da comida, da minha cultura, das minhas amigas, da minha mãe e do meu irmão, da minha família. Mas o WhatsApp tá aí e faço o possível para sempre estar em contato com eles. Perdi dois tios queridos e não pude me despedir. Isso é morar fora… muita gente tem uma ideia fantasiosa do que é ser imigrante e morar num outro país. Em falar 24 horas por dia um idioma que não é o seu, mas é o que tem pra hoje. Tem dias que meu cérebro da tilt e dou graças a Deus por ter dois colegas de trabalho brasileiros que me entendem e posso xingar o mundo e eles me entenderão. Tenho a Gabi, a Flávia, a Aline, a Juliana, a Chris, a Mirella e a Cascia que me aguentam quando estou surtada (mesmo a distancia). Sem essa rede de apoio ser imigrante não seria fácil.

As mulheres maravilhosas da minha vida (faltam algumas ai)

 

Se eu faria tudo de novo? Não tenha dúvidas!!!

Se eu voltaria a morar no Brasil? Hoje respondo com certeza que não. Sei que o amor da minha mãe e meu irmão é incondicional e minhas amigas continuarão minhas amigas não importa onde estou. Mas o meu lar é aqui (ou em qualquer outro país que eu tenha que mudar) ao lado do meu marido e da minha gata.

Morar na África me mostrou como sou abençoada nas pequenas coisas, me ensinou a acreditar em Deus em qualquer momento. Me deu a Isabella de presente quando eu nunca nem pensava em adotar um bichinho. E se existe reencarnação acredito piamente que a Isabella foi minha filha em outras vidas. Ela preenche o meu coração de maneiras que eu jamais imaginei ser possível.

Minha Bella mais bela

 

Ser imigrante é um misto de sabores e dissabores, é um contentamento descontente, é um aprendizado constante, ininterrupto e diário. É conquistar o mundo a cada dia, é perceber que não somos nada neste mundo e que viemos aqui para evoluir devagar e sempre.

O ser que virou minha vida de ponta cabeça

 

E no fim… é perceber que o nome do meu blog define exatamente quem sou hoje… uma louca pelo mundo.

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Por Érica Brasilino

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