Africa Benin

Ouidah – Benin

14 de março de 2017

Este é um daqueles posts que eu quero muito escrever mas não sei por onde começar… Antes de vir para a África eu achava que sabia sobre a história do meu país e nossos antepassados, achava que as aulas de História na escola tinham me ajudado a moldar a minha personalidade e a entender quem eu sou ou de onde vim. Ledo engano… Vir para este lado do oceano não apenas está me transformando como pessoa mas tem me ensinado muito sobre valorizar as minhas origens e ter orgulho disso.

Ouidah é uma das cidades mais famosas do Benin, país localizado no Oeste da África. Colonizado por portugueses em 1580 a cidade é famosa por ter sido a terceira maior exportadora de escravos para o Brasil e as Américas e o maior porto escravocrata do Oeste da África.

Passamos apenas 3 dias no Benin mas já sabíamos que Ouidah seria parada obrigatória. Saímos de Cotonou a capital e ao invés de seguir a rodovia principal decidimos seguir uma avenida secundária chamada Route des Pêches que era visível no Google Maps e aparentemente teríamos a companhia do mar até lá. A estradinha era uma das mais esburacadas que já pegamos mas o visual foi sensacional. O trajeto levou aproximadamente 1 hora.

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No caminho a primeira parada que fizemos foi ao avistar um grupo de pescadores recolhendo a rede do mar. É uma das atividades mais bonitas em grupo que eu já presenciei na vida. As redes tem mais de 3 quilômetros de extensão e eles fazem um ritual onde um dos pescadores toca um tambor em agradecimento aos orixás/deuses pelo alimento e pelo trabalho concedido. Essas redes ficam na água durante toda a noite e são retiradas de manhã. Geralmente todos os homens da vila ajudam. Enquanto o tambor é tocado ele dá o ritmo para que todos puxem a rede simultaneamente. É triste mas muito me lembrou os filmes sobre escravidão onde eles também remavam no porão dos navios negreiros no mesmo ritmo…

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Crédito: Stefan Heunis for GettyImages

Quando tentei tirar fotos uma das esposas dos pescadores foi bem agressiva comigo e disse que se eu quisesse fotos teria que pagar 25000CFA (aproximadamente R$130) para a associação de pescadores, ou então ela iria me bater. Sim… ela foi extremamente enfática e me mandou abaixar a câmera. Eu disse a ela que pagaria porém não aquele valor uma vez que o salário mínimo local mensal é este valor. Não entramos em um acordo e eu disse a ela que veria as imagens de graça pelo Google. Foi bem estressante e num francês macarrônico tanto da parte dela como da minha parte. Consegui uma foto de longe e de dentro do carro, mas conseguimos assistir parte do trabalho deles. Nós não nos sentimos seguros por lá uma vez que os olhares (de raiva, rancor, ódio, inveja…não sei distinguir) estavam muito intensos pro nosso lado e decidimos ir embora. Uma pena.

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Voltamos para a nossa linda estrada esburacada e avistamos um dos templos mais importantes do Voodoo no Benin, o Temple Vaudoum Adahouto Houta. Como já tínhamos passado um perrengue com os pescadores decidimos por não sair do carro nessa parte do país. Somos dois estrangeiros com um carro enorme numa parte não visitada frequentemente por turistas. Não dá pra saber quem vai nos receber com animosidade ou não. Porém vi um altar para uma entidade na porta do templo e pelo pouco conhecimento que tenho do Candomblé no Brasil acredito eu que se tratava de um exu Tranca Rua. Sendo ele ou não eu pedi licença por ter tirado uma foto e seguimos viagem.

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Chegamos finalmente a Ouidah e eu já estava numa ansiedade absurda. Ao me dar conta de que estava pisando onde milhões de pessoas pisaram pela última vez antes de entrarem em embarcações rumo ao meu amado Brasil me abateu de uma maneira sem igual. Fui acometida de uma tristeza muito grande e uma vontade enorme de chorar.


Como tudo na África, a cidade é bem pobre, e apesar de ser tombada como Patrimônio Mundial da Unesco, isso não significa que ela tenha uma estrutura turística adequada. Seguindo a indicação do Google Maps encontramos a Floresta Sagrada, onde os escravos passavam por um ritual de esquecimento antes de embarcarem rumo ao trágico destino desconhecido.


Confesso que não entramos. Eu não me senti pronta para entrar lá. Disse ao marido que se ele quisesse ir por mim não teria problema, eu o esperaria no carro. Me bateu uma angústia, aflição, desespero, opressão no peito. Um dos guias que aguardavam trabalho do lado de fora da floresta nos abordou e tentou me persuadir a entrar. Eu expliquei para ele que era brasileira e que sabia o que era o voodoo. Conversamos sobre o Candomblé, Umbanda e a herança africana na cultura brasileira e ele entendeu que não conseguiria me fazer entrar lá. Como uma pessoa que já leu muito sobre religião eu acredito que exista o bem e o mal e acredito que ainda hajam poderes naquela floresta que vagam por lá. E eu não estava preparada psicologicamente e espiritualmente para entrar. Quem sabe eu volte? Afinal estamos a apenas duas horas de carro de lá.

Depois da floresta visitamos o Temple des Pythons. Na entrada haviam dois senhores que logo eu reconheci suas vestimentas. Expliquei ao Ezio que eles eram considerados “pais de santo”como chamamos no Brasil. Eles perguntaram de onde éramos e quando eu falei Brasil pra minha surpresa ele me soltou um “Oi como vai você?”. Na cidade existe um número enorme de descendentes de escravos que após a abolição no Brasil, voltaram para Ouidah e seguiram suas vidas. Os De Souza, De Almeida, Oliveira estão espalhados pela cidade. Foi como conversar com um velho amigo e ouvir histórias que nossos professores não nos contaram no colegial.
Dentro do Templo conhecemos a árvore sagrada, local onde todas as tarde um animal é sacrificado para a grande Python. As cobras são veneradas nessa cidade como fonte de poder para os sacerdotes do voodoo. Pessoas do mundo inteiro praticantes da religião visitam o templo uma vez na vida para poder se energizar. Na segunda semana de janeiro é quando acontece o festival anual do fetiche e o templo tem o pico de turistas por dia. Lá tem uma oca com as 50 cobras sagradas do fetiche e o guia queria muito que eu entrasse lá. Claro que eu educadamente recusei (algo que o ofendeu tremendamente), mas antes ele se sentir ofendido e eu sair de lá viva do que ele ficar feliz que eu entrei e ser atacada por cobras. Por mais que ele tenha falado que elas não atacam por serem sagradas a única coisa que passava pela minha cabeça era a que eu morreria sem atendimento médico adequado caso uma delas decidisse me dar uma mordidinha. No… thanks.


O máximo que fiz foi tirar uma foto com ela perto… mais que isso, no way.

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De lá seguimos a Route des Esclaves que é a avenida principal da cidade que leva do centrinho de Ouidah para a praia. Os escravos após passarem pelo ritual do esquecimento na Floresta Sagrada desciam essa avenida acorrentados e ficavam ali esperando o momento de embarcar.


E fechamos nossa visita a Ouidah na Porte du Non Retour, monumento erguido onde aproximadamente 222 mil escravos embarcaram rumo ao Brasil e as Américas. O interessante foi presenciar um número sem fim de ônibus de turismo chegando abarrotado de pessoas por todos os lados com africanos de todas as idades aprendendo sobre suas origens. Fiquei muito emocionada.

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Confesso que não imaginei que ficaria tão abalada ao visitar Ouidah, aprendi muito e finalmente fiquei com vontade de ir a Salvador conhecer o Pelourinho e a Casa do Benin na capital da Bahia. Estar aqui deste lado e ver sobre outra perspectiva como foi a ida dessas pessoas que se misturaram aos indígenas e aos portugueses e deram origem ao nosso povo é muito gratificante. Ver a questão do negro na sociedade africana/brasileira/portuguesa e entender como temos uma dívida histórica com eles é algo que levarei comigo para sempre. Sou tremendamente grata da oportunidade de presenciar com os meus olhos tudo o que tenho aprendido ate agora.

Até o próximo post  =0)

 

 

 

 

 

 

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Por Érica Brasilino

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